"Truth is rarely pure, and never simple" - Oscar Wilde / "Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada" - Clarice Lispector

Wednesday, May 30, 2007

A coisa toda viva

Uma coisa é ouvir coisas bonitas assim, bem ditas, coerentes, com cara de discurso de palanque, fazendo uso de ferramentas de oratória e tendo os recursos da gramática em favor do orador que assume ares de profissional de tão perfeito, sem lembrar que a perfeição não é sequer humana. Outra coisa infinitamente mais mágica é ouvir coisas bonitas assim, gaguejadas, cheias de desconcerto e vacilação, um pouco como quem se joga sem ter tempo de verificar a altura, sem ter tempo de se preparar, sem ensaio. Isso é a coisa toda viva, e é inesquecível.

Sunday, May 27, 2007

Além das beiradas

E é essa solidão que é maior que tudo porque é a única possibilidade o que me faz perceber estar viva. Já falei do abismo? Que somos ilhas. Tudo isso não é novo, nada é. É preciso tomar cuidado para não esquecer da solidão só porque alguém nos ouve, lá de longe. Ainda que responda. E aquela resposta é tão clara como se fosse um pensamento meu. Ainda assim há a solidão, que não é boa nem má, porque não há como julgar o valor de alguma coisa quando tudo o que conhecemos é isto. E então essa voz cristalina que surge do vale entorpece e faz esquecer nossa condição. É quando agimos de maneira perigosa, nos iludimos. "Há alguém, há sim". Ao redor pode haver milhares. Alguns, com sorte, chegam mais perto, até a beirada. Assim como nós, que também escolhemos beiradas para nos encostar. Mas e a ilusão de que se atravessa este vácuo, esta ilusão deliciosa? Se ao menos ela pudesse existir sem a posterior angústia por se estar vivo e sem poder gritar, ou o grito existe ainda que não o ouçam? Eu aqui querendo que a solução esteja lá, mas nunca está, não é? Por isso estou sozinha, porque carrego em mim as minhas próprias soluções e ainda que queiram, e querem, fazer isso por mim, não podem, jamais poderiam. Consolo é tudo o que se pode ter. E companhia é distração e das melhores. E toda essa troca de pensamentos que se dá quando a gente conversa é uma comunicação muito superior a das palavras. Todos esses sentimentos que a gente troca é. Quase como arte, que é comunicação melhor, é arte não realizada, é arte pensada e sentida e em seguida perdida, ninguém colocou no papel. Talvez no papel da memória e só. Daí é arte para apenas uma pessoa. Mais ninguém. Porque memória não se divide nunca. E contar as coisas é quase como ficar bem míope para olhar para uma foto e tentar entendê-la. Daí a solidão do ser humano. Tudo em nós é contado. Tudo é muito dito. Eu vivo um sem sentido de momentos sequenciais e dentro de mim não respondo a tudo. Mas tudo sobra um pouco. Por ser assim desisti de fazer sentido. Sempre procurei encaixar tudo isso num enredo para apresentar aos outros mas isso era coisa contada mais escolhida do que acontecida. Porque as coisas acontecidas são assim caóticas. E quando eu amo é porque quero entrar nesse mundo desconhecido e caótico de alguém e eu gosto de acreditar que posso. Eu prefiro acreditar que sim, sempre. A infância é a fase mais inteligente da vida porque aceitamos ser assim. Depois esquecemos tudo isso e passamos o resto da vida tentando lembrar. Eu me lembro. E eu nunca vou conseguir dividir isso com ninguém mas tem gente que me diz coisas que parecem ser tão minhas, e isso assusta. É que tem coisas além das beiradas que nem conhecemos.

Friday, May 25, 2007

Espero, logo vivo.

Depois que eu passei de certa idade (e se você considera que a mera alusão à expressão “depois que eu passei por certa idade” é de mau gosto, frase feita de quem se considera velho, é porque você não tem mais a capacidade de julgar as palavras que lê por si próprio, porque todos nós passamos por certas idades quando não morremos) eu perdi toda a minha tolerância com significados subentendidos. Ficou subentendido eu simplesmente ignoro e finjo que não existe. Eu não tenho a menor intenção de descobrir seja lá o que for que você não esteja disposto a me dizer explicitamente, e se falar baixo é capaz de eu considerar não dito. Isso significa que se você quer alguma coisa, diga que quer, caso contrário vou achar que não. Se não estiver gostando avise ou então agüente calado, pois eu não tenho a obrigação de adivinhar nada, apesar de ter essa habilidade. Ocorre que quando as coisas começam a ficar embaçadas me dá preguiça porque eu sou clara na minha obscuridade, e gosto das coisas assim, claras e limpas e frescas. Dizem para gente que não é bom ter expectativas com relação às coisas em geral (pessoas incluídas), entretanto também dizem que não é bom comer chocolate, mas veja bem, não é possível deixar de comê-los, o mesmo se dá com a coisa de esperar. Com isso espero que estejamos juntos para passar a diante nesta linha de raciocínio. Espero, logo vivo. Posto isso, as minhas expectativas (and everyone else’s) são construídas de acordo com o que você diz, em alto e bom som, ou seja, com o que você grita, melhor assim. E se você não diz nada e prefere deste modo não preencher esta lacuna, preencho eu (afinal, estou viva, e quem está vivo espera). Como eu não tenho muita imaginação para estas coisas, em geral eu preencho com nada. Não se engane, preencher com nada não significa não esperar, significa esperar nada, o que é bastante diferente viu. E assim caminho eu, nas minhas micro decisões diárias, micro não porque são sem importância mas porque são tantas e ocorrem a todo momento. E assim construo a minha felicidade.

Sunday, May 13, 2007

Mais para dentro

A carne do que é feita a parte da gente que fica mais para dentro, não a parte que até da gente se esconde mas a que nos pertence, a que nos dá a chave para deixar entrar e mandar sair, essa carne é carne viva e macia, muito delicada, que quando pisam ainda que de mancinho apenas para poder entrar dá uma dorzinha e faz chorar, como quem chora por uma beleza. Como quem chora pelo próprio abismo que se precipita tanto e sempre, e pela imensa fragilidade que ele atribui, sem dó. É por isso que todo rastejar é pouco, todo contorcer de músculos para não fazer barulho é prova de amor. E depois há que soprar, fazer curativo e passar a noite velando as marcas do caminho, ainda que sejam bonitas, e são.

Thursday, May 10, 2007

Sobre o Papa e outras amenidades

Pasmem, estava eu entrando em um trem do nosso saudoso metrô esta noite quando ouço um aglomerado de gente bradar animadamente: “Viva o Papa. Viva o sucessor de Pedro.” Vejam só vocês que frases mais imponentes, eu diria até poéticas para um país como o nosso. Eu me senti num filme “de época”, ou ainda, novela, só faltavam os cavalos e suas carruagens. E me diverti muito, eu estava toda cansada e sem inspiração e de repente isso, além das frases de efeito havia canções que penso eu serem religiosas. Por isso que eu gosto que exista gente bem estranha no mundo, me diverte, entretém. Pois tudo isso me pôs a pensar: “E não é que tem todo tipo de gente por ai.” E como é que esses grupos sobrevivem? Digo, estas pessoas que seguem fazendo aquilo que no geral as pessoas não consideram fazer há décadas. E a resposta é: Eles se disfarçam. Antes do Papa chegar eu não conhecia nenhuma pessoa que estivesse disposta a gritar vivas desta natureza no metrô. E quando surge o momento de eclodirem para o mundo estas pessoas se unem em grupos e se comportam de maneira constrangedora. Estratégia muito inteligente já que ninguém em sã consciência vai chegar e conversar com uma pessoa que grita temas religiosos em um transporte público. Eu já explico aonde estou querendo chegar: Essas pessoas não sobreviveriam a um só instante de conversa com um ser humano médio. Bastam duas perguntas sobre o tal fanatismo e pronto, a pessoa entraria em surto e perderia totalmente o sentido de viver. Bastava um simples: Por que você considera o Papa uma pessoa (dúvida: Papas são pessoas?) diferente de você a ponto de ser mais próxima de Deus? E ainda que você tenha argumentos bastante bons para isso, por que agir como um torcedor de futebol? Cadê a bola? São muitos os mistérios, nossa. A minha posição é muito simples, o cara é contra sexo fora do casamento. Do I need to go on here? E tem mais, tem mais, camisinha, homossexual, aborto. Bastaria dizer que está em favor da chatice e pronto, o poder de síntese é uma dádiva. Alguém me explica como é que alguém pode levar isso a sério? É muita hipocrisia, não que eu tenha nada contra a hipocrisia mas esta em especial eu considero de muito mau gosto. Eu até poderia entrar no mérito dos católicos não praticantes e certamente todos os meus amigos já me ouviram dizer que eu sou jogadora de basquete não praticante and all. Eu sou bem repetitiva às vezes, praticamente uma flor de obsessão, eu e Nelson somos assim ó. Entretanto esse assunto todo de religião já me cansou, então não digo mais nada.

Quero dizer ainda, bem assim, out of the blue, que é muito bom quando a gente escolhe alguém bem escolhidinho, e a pessoa coincide de também escolher a gente desse jeito, bem escolhidinho, e fica tudo assim bem selecionado e distinto. Tem gente que é agulha no palheiro, lembrando que agulha é uma coisa mui extraordinária quando tudo o que se vê é palha.

E eu me esqueci do assunto com o qual eu gostaria de terminar este meu discurso, ah sim, me lembrei, o uso de palavras de língua inglesa no meio do texto escrito ou falado predominantemente na língua portuguesa. Eu gosto de introduzir os tópicos assim, sem dar indícios da minha opinião, para que dê tempo do leitor pensar na sua própria e então se deparar com outra, com sorte diversa. Mas voltemos, eu considero que este tipo de prática, ainda que tenha ares de arrogante, é a otimização da comunicação. Todos sabemos que as línguas não são exatamente traduzíveis, cada palavra tem seu universo de significado e vai adquirindo um contexto todo seu, o ideal seria que pudéssemos lançar mão de todas as línguas para sempre dizer exatamente o que queremos. Enquanto isso não for possível, que seja o inglês. E chamar de arrogante quem faz uso disso é despeito. Arrogância e despeito são coisas recreativas, se eu escrevesse um livro certamente criaria uma personagem bem arrogante e despeitada. Mas essa coisa de chamar de arrogante quem demonstra conhecimento só porque vivemos num país de ignorantes é uma ignorância ainda maior. Vamos todos desprezar a concordância então, vamos desconsiderar a ortografia, afinal de contas é muito feio declarar conhecimento da língua com tantos analfabetos ao redor. Ahã. O que mais me diverte é notar que estas pessoas de coração bão nem notam a soberba que exalam ao defender os “fracos e oprimidos” se considerando muito superiores que o resto da humanidade. Assim é.